Quatro anos depois do aclamado "Beats Vol. 1: Amor", o opus de instrumentais que esteve na base de um generalizado aplauso, Sam The Kid regressa com "Pratica(mente)", o seu quarto álbum e de certeza o mais ambicioso disco de uma carreira que já gerou uma longa e complexa história que agora se conta aqui.
«Sou um bocado inseguro», explica Sam The Kid. Esta frase faria sentido se proferida por qualquer outro artista, mas não parece encaixar-se no perfil público de Samuel Mira, o miúdo de Chelas que há quatro anos obrigou todas as atenções a voltarem-se para dentro do então ainda imberbe mundo do hip-hop tuga. Sam The Kid hoje já não é um miúdo, mas um homem de convicções profundas que se prepara para editar o quarto álbum de uma carreira que só tem conhecido sentido ascendente. Estreou-se aos 20 anos, em 1999, com o disco de produção caseira "Entre(tanto)", elevou a fasquia do rap nacional com "Sobre(tudo)", tocou fundo no sentido musical nacional com a banda sonora para o romance entre os seus pais – "Beats Vol. 1: Amor" – e agora prepara-se para dar a conhecer "Pratica(mente)". A pausa foi longa – quatro anos – mas serviu para burilar o estilo, as palavras e a música. Serviu também para tratar um problema de garganta (ver caixa) e solidificar amizades. Serviu ainda para manter os pés assentes na terra e para se concentrar. O resultado está à vista.
No que diz respeito aos recursos humanos e técnicos, "Pratica(mente)" é muito provavelmente o mais ambicioso disco de hip-hop produzido em território nacional. A gravação e mistura passou por três estúdios – Índigo de Manuel Faria, Enchufada e Meifumado – e a masterização teve lugar no Sterling Sound de Nova Iorque. O giradisquista responsável por todos os scratches no disco é o DJ Cruzfader e em termos de vozes de cantores há a registar nomes como o de Melo D, NBC ou SP. Os Cool Hipnoise também colaboram, como banda, num dos temas – e isso inclui os vocalistas Marga e Milton. Há também uma série de MCs convidados: Valete, Pacman, GQ, NBC e Lil' John, «a rimar pela primeira vez na vida», adianta Sam The Kid. Como músicos, além dos Cool Hipnoise como colectivo, há a registar a participação de João Gomes individualmente, Carlos Bica e Lil' John, entre outros. Os temas têm todos produção de Sam The Kid.
A insegurança que Sam The Kid refere tantas vezes pode na verdade ser encarada como perfeccionismo. E, mais do que o episódio da operação à garganta, é esse carácter perfeccionista que deverá ser responsabilizado pela longa pausa na carreira de Sam The Kid. «Comecei a trabalhar neste disco logo a seguir ao meu álbum anterior», explica. «Envolvo-me é muito com as coisas, custa-me deixar os temas e achar que estão terminados. Os engenheiros de som com quem tenho trabalhado quase nem acreditam que o álbum vai sair – porque sempre que chegava ao estúdio levava um novo sample, ou um beat completamente diferente para experimentar num tema já gravado».
E a verdade é que, a dois dias de entregar o master na editora, Samuel ainda estava imerso em trabalho no estúdio: «e se tivesse mais tempo ainda havia de acrescentar mais pormenores, mais elementos de ligação entre os temas, mais uns samples de voz», assume, de forma perfeitamente desarmante. Sam é brutalmente honesto, a todos os níveis. Quer quando fala da sua veia apolítica – como retratada no tema "Abstenção" – quer quando explica os seus sentimentos em relação a outros músicos nacionais. «Adoro pesquisar música portuguesa antiga e isso ensinou-me a respeitar todos os músicos. Até o Marco Paulo. É preciso haver todos os sabores de música», sublinha. É provavelmente esta franqueza que lhe tem valido amizades improváveis que se adivinham quando o seu discurso vai sendo polvilhado com nomes como Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, Zé Pedro ou Rui Veloso. «Tenho tido a sorte de ir conhecendo artistas que admiro e dar-me bem com eles» confessa. «Há uns tempos ligou-me o Fernando Girão. Tenho coisas dele a solo e nos Very Nice que são fantásticas. Quando me ligou pensei que fosse para me convidar para alguma cena, mas foi mesmo só para estarmos lá em casa a conversar e a ouvir música um do outro». Mas há «cromos» que ainda faltam na sua caderneta de troféus: «Conheci o filho do Fernando Tordo no Bairro Alto e pedi-lhe para ele dizer ao pai que o admiro muito. Também ainda não conheci o Carlos Mendes... ou o Sérgio Godinho. Faltam-me ainda alguns...».
Posteridade
O universo musical de Sam The Kid – aquele em que se move para angariar ideias, referências e até samples – é muito particular e algo atípico, tendo em conta a geração em que se insere. E, nesse campo, as suas ideias estão muito definidas: «falávamos no Zeca Afonso: para dizer a verdade, o Zeca nem sequer é o meu 'nigga'. Claro que já o samplei, tenho muitos discos dele, mas não é muito variado em termos da sonoridade dos instrumentos». Garganta funda
"Pratica(mente)" está cheio de histórias reais, mas não inclui nenhum tema sobre o sobressalto mais importante da vida recente de Sam The Kid. «Tenho aqui um caderno cheio de apontamentos sobre isso», revela o rapper, referindo-se à detecção de um quisto nas cordas vocais que o forçou a ser operado e a encarar a vida de forma mais saudável.
O problema tornou-se evidente quando Sam The Kid não recuperou da maratona de três dias que foi o "Hip Hop All Stars": «senti-me mesmo mal e, depois de ir ao médico e de me mandarem deixar de fumar, decidi ligar ao Rui Veloso, porque sabia que ele também já tinha sido operado». Seguiu-se um mês de terapia da fala, mas o problema não passava. «E então decidi ligar ao Tozé Brito». Mais médicos se seguiram, mas o problema teimava em afectar-lhe a voz, ao ponto de Sam quase exigir ser operado: «já só pedia que me operassem».
Neste período ouviu conselhos muito diferentes – «o Rui Veloso dizia-me para ter calma e o Vitorino dizia-me para não ter medo de ser operado». Mas a operação acabou mesmo por acontecer às mãos do reputado Dr. Mário Andreia, depois de um impulso decisivo de Carlos do Carmo, que acabou a responsabilizar-se pelos significativos custos da operação. «Sinto-me muito grato a muita gente. O gesto do Carlos do Carmo, um homem que admiro, comoveu-me».
Mas, afinal, quem é mesmo o 'nigga' de Sam the Kid? «Na vertente orquestrada, o Carlos do Carmo é um dos meus 'niggas'. Muito mais do que no fado. Esses sons orquestrados e cheios de drama é que me matam. Adoro o Paulo de Carvalho... O Blackground dos Duo Ouro Negro, adoro». E em termos poéticos? «Ary dos Santos. Esse é mesmo o meu 'nigga'», revela Sam The Kid, visivelmente entusiasmado. «Ele escrevia e recitava de uma forma muito própria. Uma das coisas que sempre me fascinou na poesia são as intrigas, as tramas que andam lá pelo meio e que não são só A-B, A-B. E ele tem essas cenas, isso está tudo lá». No entanto, nem quando explica porque sente Ary dos Santos como um dos seus heróis – um dos seus 'niggas' – Sam finge ser o que não é: «no outro dia, na rádio, o Valete falava sobre hábitos de leitura. Tenho que confessar que não leio livros – talvez por dificuldade de concentração, não leio. É verdade que leio revistas mas muitas são revistas de merda».
Fernando Pessoa disse que o poeta é um fingidor, mas Sam The Kid não sabe fingir e por isso insere-se noutra categoria de artista para quem a realidade é um valor superior. Só isso explica que, para um dos telediscos de promoção a "Pratica(mente)", tenha levado toda a sua mobília para um estúdio, para recriar o seu quarto. «Podíamos lá ter metido outra mobília qualquer – afinal são poucas as pessoas que sabem como é o meu quarto, mas isso para mim não iria bater certo». Nem nos pequenos interlúdios do álbum facilita: «a dada altura senti necessidade de usar a voz de um vizinho, o Marco, só que ele foi para fora e eu andei meses à espera dele – tive que gravar com um sobrinho dele, que é a coisa mais próxima». E depois há os pormenores – de primeira grandeza: «há certas incorrecções no disco – digo numa música que não tenho computador, mas o meu pai ofereceu-me um há uns dias... mas pronto, não está ligado à net ainda».
Esta honestidade afastou Sam dos palcos durante muito tempo – «não tinha nada de novo para mostrar» – e agora volta a vir ao de cima no momento de planear o futuro: «sei que tenho que ter um bom espectáculo se quiser vir a ser respeitado. Quero ser criativo em cima do palco. Não quero simplesmente mandar as pessoas colocarem os braços no ar... quero dar mesmo um espectáculo que deixe as pessoas a dizer "é pá, o Samuel está com um concerto do caralho!"».
Para Sam The Kid, o futuro do hip-hop em Portugal depende de uma série de factores, como a criatividade nos concertos e, muito importante, «depende também da capacidade de se fazer música pelas razões certas – é preciso respirar hip-hop a todas as horas. Isto não é uma arte que precise de ti só às sextas-feiras». E no mesmo momento em que reconhece a boa forma do hip-hop que se produz dentro de portas, não hesita em apontar o dedo a uma estagnação vinda da cena americana: «nos prémios MTV que vi o Lou Reed a pedir para se passar mais rock. Neste momento o rock é o "underdog", mas vai dominar. BLITZ 05
Nova Iorque não está a bater e está desesperadamente a tentar recuperar a aura – é só hinos agora a dizerem "New York, New York"». Quem é que afinal vai salvar o hip-hop: «acho que vai ser o Dr Dre, ele é que tem capacidade para mudar sonicamente as cenas». Quanto a Portugal, "Pratica(mente)" não restam dúvidas...